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"Um dia tudo isto acaba, apenas para o que essencial possa
prevalecer"
E se um dia acordassem e tudo estivesse diferente? Se todo o conforto, segurança e rotinas de anos desaparecessem? Se fossem desligados da vida tal como a conhecem, sem sistema financeiro, sem bancos, sem políticos, sem tecnologia, sem patrões, sem... nada?!
Deus nos
livre de tal catástrofe, pensará a maioria.
Pois eu
pensei num dia assim e sinceramente não me pareceu assim tão mau. Naturalmente
que passar tantos anos enfiado no meio de tudo isto cria resistências naturais
que se agarram a todos os poros do corpo e demora até conseguir sacudi-las do
corpo e da mente, mas que é aliciante pensar em desligar por completo de
tudo... não tenho dúvidas.
O Portugal Rural esta a perder-se e há poucos valores que lamente tanto que se percam como esse em particular. Perde-se a capacidade do verdadeiro trabalho, perde-se o contacto com a TERRA, perde-se a noção da importância da Natureza e de tudo o que ela proporciona e as pessoas acabam por perder a ingenuidade que deveria ser comum a todos pois acrescenta algo de puro a cada um de nós.
Um dia (há-de ser) Assim:
Acordo cedo, tão cedo que ainda esta escuro. Tento acender a luz mas não encontro o interruptor. Às apalpadelas tento encontra-lo, mas a pouca luz de um dia que ainda nem começou não me ajuda a encontrá-lo. Desço à cozinha para procurar uma vela, mas sem sucesso. Depois de muito esforço, muitos tropeções e apalpadelas finalmente consigo encontrar o que parece ser uma velha candeia a óleo. Apesar de sentir algumas dificuldades, consigo finalmente acende-la. Procuro o interruptor da cozinha mas também não o encontro. Reparo também que não existe uma única lâmpada pendurada no tecto. Nem qualquer tomada espalhada pela parede.
Procuro
o frigorífico para beber um pouco de leite mas, surpresa, também não
tenho frigorífico. A pouca luz que a velha candeia me concede
permite-me apenas encontrar umas peças de fruta em cima da mesa. Sento-me num
velho banco de madeira e como uma laranja.
O dia começa finalmente a clarear. Com luz será mais fácil pensar o que está a acontecer…
Confirma-se,
não tenho frigorífico, nem qualquer electrodoméstico. A cozinha tem apenas uma
mesa, dois velhos bancos de madeira e prateleiras com panelas e louça velha. Do
outro lado da casa uma lareira enorme, aberta, completamente coberta por
fumeiro já seco. Alheiras, presuntos, chouriços, etc. No canto uma banca de
pedra e prateleiras com muita verdura, batatas, cebolas entrelaçadas num fio a
cair do tecto e todo o tipo de especiarias num pote de barro.
Abro a pesada porta de madeira, e sento-me na cadeira de baloiço no alpendre. Fico a observar o nascer do sol enquanto ouço o barulho do pequeno riacho que viaja uns patamares mais abaixo. O sol começa a mostrar a enorme horta cultivada. Dou um salto até lá. Couves, cenouras, alfaces, tomates, pepinos, beterrabas…
Mas de
repente algo chamou a minha atenção, vários barulhos que pareciam vir do
celeiro, mas não só. Com algum receio aproximo-me, tiro a cancela da porta e
abro-a devagar. Dois cavalos acenam-me como se estivessem a dar-me os bons
dias. Vejo enormes fardos de feno empilhados ao longo da parede. Em baixo um
arado e todo o tipo de utensílios para lavrar a terra. Pipos de madeira cheios
de vinho, outros com azeite, batatas espalhadas numa estrutura de madeira
elevada um metro e meio do chão, várias caixinhas com sementes dispostas em
prateleiras e muitos sacos empilhados, desde cereais, milho, feijão, etc...
Agarro um pouco de feno e umas canas frescas e deito aos
cavalos.
Saio do celeiro e anexo ao mesmo encontra-se uma cerca onde já saltitam duas pequenas cabras, o porco ao lado chafurda na lama, as galinhas ainda sonolentas rapam a terra, os patos mergulham no pequeno charco de água e, indiferente a toda esta agitação matinal, a vaca ainda dorme. Trato de dar de comer a todos e quando acabo sou eu que estou com fome.
Entro na
cozinha, agarro num balde de ferro e vou ordenhar a vaca. Enquanto o faço sinto
o cheiro a pão fresco que vem da casa da vizinha. Como pão acabado de fazer com
compotas frescas, frutas variadas apanhadas no pomar e claro, leite de vaca.
O resto da manhã passa a voar. Levar as cabras para o pasto, lavrar a terra que com a chuva ganhou muita erva e, por fim, fazer o almoço.
Acabo de almoçar, durmo uma pequena sesta. Acordo uma hora depois e como ainda esta calor, aproveito para me auto recriar. Arranjo a mesa da cozinha e a porta da entrada. Vou até ao pequeno rio para tentar apanhar algo para o jantar. Acabo por ter sorte pois consigo apanhar dois pequenos barbos e o jantar está assegurado. A galinha viverá mais um dia!
Entretanto começa a cair a tarde e é preciso regar a horta. Depois de regar a horta e tirar as maiores ervas apanho verduras para alimentar aos animais, recolho as galinhas, as cabras e vou tratar do jantar.
Acendo a
fogueira na rua e grelho os peixes. Enquanto isso uma panela aquece água onde
faço uma sopa. Janto já à luz da velha candeia. No final acendo o cachimbo,
abro um livro e penso que a louça vai ter de ficar para amanhã...